segunda-feira, 3 de maio de 2010

Recoleta

Mística e mundana. Vanguardista e conservadora. Culta, e muitas vezes consumista. Solene e exibicionista. Cosmopolita, mas patriótica. Assim é a Recoleta. E, é assim também, que podemos resumir o corpo e a alma dos porteños.

Recoleta - Chic Buenos Aires

Para desbravar e caminhar nesta terra de paradoxos e contrastes que é Buenos Aires, a Recoleta é um bom ponto por onde começar, porque resume bem o corpo e a alma de seus habitantes. O esnobismo e a espiritualidade. A tradição e o capricho. A Recoleta abriga modas, futilidades e luxos. Mansões da la Belle Epoque junto com malabaristas e mimos de rua. Avenidas enormes e praças com arvores e bosques antingos. Vitrines sofisticadas, gastronomia e um cemitério ilustre. Mostras internacionais de arte, desenho e uma famosa feira ao ar livre, aos domingos, com artesanatos, espetáculos públicos e até cartomantes.


O bairro mais chique de Buenos Aires com as brilhantes avenidas Quintana e Alvear. A primeira, nasce junto a Igreja, que se chama "La Calle Larga de la Recoleta". A avenida Alvear, originariamente conhecida como "Bella Vista" e planejada em 1885 por iniciativa do primeiro prefeito da cidade, don Torcuato de Alvear, esteve desde sempre rodeada por construções aristocráticas, como o palacio de Pereda (residencia do embaixador do Brasil) e o de dona Concepción Unzué de Casares, a sede do Jockey Club.

E uma curiosa ironia - ou uma magnifica ironia, parafraseando o grande escritor argentino Jorge Luis Borges - esta área exclusiva, deve sua origem, a humildade dos padres Recoletos descalços, que vieram a se instalar ali nos tempos coloniais, quando o Rio da Prata chegava quase ao pé do barranco onde atualmente é a Praça França. Era 1716 e o governador espanhol autorizava a construção de uma igreja e um convento para os monges Recoletos, da Ordem Reformada de San Francisco. Os recursos foram doados por um paroquiano de Zaragoza, por isso a devoção à Virgem del Pilar de Zaragoza, que foi santificada em 1732.


Perto da igreja, os frades construiram uma horta e um cemitério; e sem poder imaginar, deixaram estabelecida, no fundo da história, a fisionomia da Recoleta de hoje. Essa excentrica mescla de imagens alusivas a morte e a vida, e que os porteños raramente reparam: o sossegado cemitério rodeado por bares, restaurantes e casas noturnas que foram crescendo, um ao lado do outro, ao redor de seus muros. A horta foi destinada para enterrar o superior da ordem religiosa, em 1822, e se chamou Cemiterio del Norte. Com o passar dos anos sua beleza funeraria dos mausoleus foi se firmando por importantes arquitetos, e seu patrimonio artístico por escultores italianos, espanhóis e franceses. Em seus quase seis hectares jazem os restos de pessoas da "alta sociedade", guerreiros da independencia, ex presidentes, cientificos, escritores, e é claro, o túmulo mais famoso: de Eva Perón.

Por toda essa história maravilhosa, é que a Recoleta é um dos passeios obrigatórios para quem vai a Buenos Aires.

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